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Capacitação sobre o Protocolo Carne Baixo Carbono aproxima cadeias produtivas

Dalízia Aguiar (MTB 28/03/14/MS) - 28/09/2026


 A expansão da certificação da Carne Baixo Carbono (CBC) passa pelo treinamento de profissionais para atuar na auditoria de propriedades e frigoríficos participantes do protocolo. Dessa forma, especialistas reuniram-se durante uma capacitação técnica, promovida pela Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), para dois dias de discussões e aprendizado. Logo na abertura, percebeu-se que a experiência acumulada pela Embrapa na construção do Protocolo Carne Baixo Carbono (CBC) começa a contribuir também para o desenvolvimento de protocolos de outras cadeias produtivas.

Para o engenheiro-agrônomo Sérgio Pimenta, consultor que acompanha a implantação do CBC em propriedades rurais, um dos diferenciais da metodologia é justamente seu detalhamento técnico. “Foi um desafio porque é um protocolo muito técnico e realmente ele entra dentro da fazenda e faz a diferença”, afirma. Esse nível de detalhamento tornou o processo de construção mais longo, mas também contribuiu para que o protocolo tivesse aplicação prática no sistema produtivo.

Atualmente, ele acompanha a implantação do CBC em dez propriedades, selecionadas com diferentes perfis e graus de adequação. A diversidade permite observar como os critérios funcionam em realidades distintas e preparar o processo de auditoria.

Na percepção do consultor, um dos desafios está em mostrar ao produtor que atividades aparentemente isoladas interferem no resultado global da propriedade. Um exemplo é o manejo da pastagem. “Existe resistência, às vezes, em medir altura de pasto. O produtor diz que conhece e sabe manejar. Quando começa a medir e olhar os números, percebe coisas que não enxergava antes. O protocolo ajuda a mostrar que o pasto tem relação com ganho de peso, alimentação, custos e resultado econômico. Está tudo conectado”, destaca. 

(Equipes MBRF, ICNA, Plataforma AgriTrace, 360Consult e Embrapa em debate)

Gestão das informações
A gestão do Protocolo ainda envolve o Instituto CNA, responsável por receber e gerir as informações dos protocolos voluntários homologados no sistema da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). De acordo com Karina Mandro, assessora técnica do Instituto CNA, o processo começa com a apresentação, pelo detentor do protocolo, dos documentos que descrevem seus objetivos, critérios e formas de execução. O material passa por avaliação técnica e, após homologação, são formalizados os instrumentos de cooperação.

No caso do CBC, esse fluxo utiliza a Plataforma AgriTrace Animal, que recebe informações relacionadas às propriedades e à certificação e permite o compartilhamento dos dados conforme as atribuições das instituições envolvidas.

“O protocolo passa por uma verificação técnica antes da homologação. Isso traz uma chancela e ajuda a estruturar a cadeia e dar abrangência ao processo”, explicou Karina. Na avaliação dela, protocolos voltados à sustentabilidade fazem parte de um movimento, sem volta, e crescente do setor agropecuário.
Um dos pontos debatidos no treinamento foi a percepção de que a certificação possa representar apenas aumento de custo e burocracia para o produtor. Para Mandro, a proposta deve ser compreendida de outra forma. “É uma forma de profissionalizar a produção e a propriedade. O Brasil tem perfis produtivos muito diversos, mas muitos produtores já estão se estruturando e caminhando nessa direção”, disse.

Além da formação de auditores, o encontro tornou-se espaço de troca de experiências com equipes da Embrapa que trabalham na construção de protocolos de baixa emissão de carbono para outras atividades agropecuárias. Entre as iniciativas presentes estavam Soja Baixo Carbono, Milho Baixo Carbono, Sorgo Baixo Carbono, Trigo Baixo Carbono, Leite Baixo Carbono e Couro Baixo Carbono.

Experiência da carne encurta caminhos para a soja
O Programa Soja Baixo Carbono está em uma etapa anterior àquela alcançada pelo CBC. A equipe trabalha atualmente na revisão da documentação que dará sustentação ao protocolo, incluindo memorial descritivo, anexos, checklist e manual operacional. Ao mesmo tempo, a metodologia vem sendo testada em 66 unidades-piloto distribuídas pelo Brasil, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, segundo Henrique Debiasi da Embrapa Soja (PR). 

O projeto Soja Baixo Carbono foi oficializado no fim de 2022 e a previsão apresentada pela equipe é disponibilizar o protocolo, em nível comercial, para a safra 2027/2028. Para o pesquisador Debiasi, a experiência construída anteriormente pelos pesquisadores da Embrapa Gado de Corte facilitou o caminho. “Para nós foi muito mais fácil do que o caminho percorrido pela equipe da carne, porque já seguimos uma trilha iniciada. Claro que tivemos de adaptar, mas as iniciativas Carne Carbono Neutro e Carne Baixo Carbono têm acelerado muito o nosso processo”, ressalta.

A participação no treinamento também possibilitou revisar aspectos do protocolo da soja tendo em vista uma eventual integração futura. Essa aproximação trouxe à discussão um desafio maior: desenvolver, no futuro, mecanismos capazes de reconhecer sistemas integrados de produção, e não somente produtos isolados.

Para a equipe do Soja Baixo Carbono, a integração é desejável tanto do ponto de vista técnico quanto econômico. Em propriedades que trabalham com soja, milho e pecuária, práticas de manejo, correção do solo, fertilização e uso dos recursos se relacionam e produzem efeitos sobre todo o sistema.

Para a equipe da carne, o aprendizado a partir da iniciativa de vanguarda do Protocolo Carne Carbono Neutro (voltado para sistemas silvipastoris e agrossilvipsatoris), lançado em 2020, facilitou o desenvolvimento do Protocolo Carne Baixo Carbono, proposto para ser aplicado em sistemas pastoris e agropastoris, como afirma Roberto Giolo, um dos idealizadores do conceito.

No ICNA, comenta Mandro, há o desenvolvimento de uma estrutura destinada ao segmento vegetal, que poderá receber protocolos voluntários relacionados a produção, sustentabilidade e rastreabilidade.

Sobre o CBC
Reconhecer e valorizar os produtores rurais que adotam boas práticas agropecuárias voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa, conciliando produtividade e conservação ambiental, esse é o propósito do Protocolo Carne Baixo Carbono (CBC). A  certificação é baseada no Protocolo Carne Baixo Carbono, desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) em parceria com a MBRF e com apoio da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. 

Entre seus pontos principais, o protocolo estabelece critérios técnicos e indicadores que permitem monitorar e certificar propriedades rurais que aplicam sistemas de intensificação sustentável — integração lavoura-pecuária (ILP), pastagens de alto desempenho produtivo, recuperação de pastagens e manejo eficiente do solo e da água.

O protocolo também conta com critérios sócio-ambientais importantes para a adequação da propriedade, além da rastreabilidade individual dos animais e atua em duas vertentes, na redução das emissões de carbono, por meio das boas práticas agropecuárias e redução da idade de abate (máximo de 30 meses) e no acúmulo ou manutenção dos estoques de carbono no solo, por meio do adequado manejo da pastagem. Neste contexto, ele concilia melhoria na eficiência produtiva e econômica com diminuição dos impactos ambientais, além da valorização do produto e da propriedade.  

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