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Estudo inédito avalia emissão de metano de bovinos a pasto no bioma amazônico

Kaile Rodrigues (DRT 524/MS ) - 08/10/2026


O agronegócio brasileiro enfrenta o constante desafio de conciliar o aumento da produtividade com a redução do impacto ambiental. Como parte desse esforço, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Embrapa Agrossilvipastoril, concluíram recentemente a fase de campo de um estudo científico que quantifica as emissões de metano entérico (CH₄) de novilhas de corte mantidas em diferentes sistemas de pastejo. O experimento, realizado no município de Sinop (MT), utiliza tecnologias de ponta para entender a eficiência de sistemas integrados e desenvolver modelos de produção com baixa emissão de carbono voltados para a realidade climática da Amazônia.

O metano é um dos principais gases causadores do efeito estufa (GEE). Na pecuária, ele é gerado naturalmente durante o processo digestivo dos ruminantes, fenômeno conhecido como fermentação entérica. Entender, mensurar e mitigar essas emissões tornou-se uma urgência climática global e uma prioridade estratégica para o Brasil, país que detém um dos maiores rebanhos comerciais do mundo e que atingiu cerca de 20,8 milhões de toneladas de emissões de metano em 2023.


A precisão da técnica do gás traçador

Para realizar as medições com exatidão, a equipe científica empregou a metodologia do gás traçador hexafluoreto de enxofre (SF₆). Diferentemente de métodos tradicionais que exigem o confinamento restrito do animal em câmaras respirométricas, essa técnica possibilita estimar a emissão diária de metano de forma individualizada, enquanto as novilhas pastam livremente e se alimentam no piquete.

O procedimento consiste na inserção de uma pequena cápsula de permeação no rúmen do bovino, que libera o SF₆ a uma taxa constante previamente mensurada em laboratório. Através de cangas com tubos capilares acopladas próximas ao focinho e à boca das novilhas, os cientistas capturam amostras contínuas do ar exalado, armazenadas em cilindros de vácuo. A análise laboratorial da proporção entre o metano e o gás traçador nessas amostras permite determinar a quantidade exata de CH₄ emitida por cada indivíduo ao longo do dia.


Segundo os especialistas responsáveis pelo projeto, cruzar a mensuração dessas emissões com dados de desempenho zootécnico — como consumo de forragem e características qualitativas da dieta — é um passo fundamental. Essa abordagem garante a geração de evidências altamente representativas da pecuária nacional, já que os animais são avaliados em condições de manejo que simulam de perto a rotina comercial das fazendas. Todo o rigor metodológico e a exatidão nos manejos diários contaram com o indispensável apoio operacional dos estudantes que integram o Grupo de Estudos em Pecuária Integrada (GEPI).

Integração lavoura-pecuária e foco no bioma Amazônia

O monitoramento realizado em Sinop integra um projeto de pesquisa mais amplo, denominado "Modelos de sistemas de integração lavoura-pecuária, com consórcio de leguminosas, sobre o estoque de carbono no solo, produção animal, vegetal e emissões de gases de efeito estufa". A importante iniciativa é vinculada à Rede de Descarbonização, que atua sob a liderança do professor e zootecnista Dalton Henrique Pereira, pesquisador da UFMT.

É nesse cenário de inovação que o INCT Gado de Corte e o INCT Ciência Animal (vinculado à Universidade Federal de Viçosa - UFV) uniram forças. O projeto de cooperação, que conta com a colaboração do professor Dr. Bruno Grossi Costa Homem, soma competências e experiências científicas com um objetivo central: investigar as emissões de metano entérico (CH₄) de bovinos criados em sistemas de pastejo. A integração promete ampliar de forma significativa as possibilidades de avanço tecnológico e sustentável para a pecuária nacional.

Na linha de frente da execução dos trabalhos a campo está João Maurício de Andrades Ferneda, estudante do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da mesma universidade. O foco central desta pesquisa de mestrado/doutorado é avaliar de que maneira os sistemas consorciados de gramíneas com leguminosas forrageiras impactam não apenas a nutrição e o ganho de peso das novilhas — fator que, isoladamente, já tende a diluir a emissão de metano por quilograma de carne produzida —, mas também investigar as alterações na dinâmica do sequestro e estoque de carbono diretamente no solo da pastagem.

Para a Amazônia, que frequentemente figura no centro das pressões e dos debates ambientais globais, encontrar alternativas produtivas rentáveis que otimizem as pastagens degradadas e evitem a necessidade de abertura de novas áreas de mata é imperativo. Nesse sentido, os dados colhidos fornecerão bases científicas sólidas para atestar a viabilidade e a eficácia ambiental dos sistemas integrados em regiões tropicais.

Desdobramentos e sustentabilidade futura

Com o encerramento oficial do período experimental e a finalização completa das coletas de amostras na unidade da Embrapa Agrossilvipastoril, os pesquisadores concentram-se agora em uma nova fase da investigação: a análise laboratorial aprofundada e a tabulação de todos os parâmetros recolhidos.

Os resultados definitivos serão divulgados em breve em publicações científicas e dias de campo, e prometem subsidiar tanto a criação de políticas públicas quanto orientar os próprios produtores. Em um cenário onde o mercado internacional se torna dia a dia mais exigente quanto às garantias de rastreabilidade e à pegada de carbono da cadeia de suprimentos, gerar tecnologias e conhecimento local amparado pela ciência é o caminho definitivo para assegurar o protagonismo, a credibilidade e a competitividade da pecuária brasileira sustentável a longo prazo.


ENTENDA O CASO: METANO NA PECUÁRIA

• O que é o metano entérico? É um gás de efeito estufa (CH₄) gerado naturalmente pela fermentação realizada por microrganismos durante a digestão fibrosa de ruminantes, como bois e ovelhas. A maior parte de sua liberação ocorre pela eructação (arroto) do animal, não pelas fezes.

• Como é mensurado a campo? O projeto utiliza a sofisticada técnica do gás traçador SF₆ (hexafluoreto de enxofre). Ela permite aferir a emissão de cada bovino de maneira contínua enquanto o gado segue em regime de pastejo livre, conferindo alta confiabilidade aos resultados em relação ao ambiente produtivo real.

• Qual a utilidade prática? Estudar e certificar in loco que sistemas produtivos integrados reduzem a intensidade das emissões entéricas e ainda retêm mais carbono no solo. Isso comprova tecnicamente o potencial verde da pecuária nacional e ajuda o Brasil a cumprir seus compromissos internacionais no Acordo de Paris.



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